Não pense em vencer. Pense em não perder.— Gichin Funakoshi

Ainda me encontro afastado do karate, mas ele está longe de estar afastado de mim. Comecei muito novo e, hoje, ele faz parte da minha vida, da minha personalidade e da forma como ajo e interpreto o mundo. A marcialidade, por si só, é apenas a ponta do iceberg. O que lhe dá vida e estrutura é sua filosofia.
Eu diria que ela se parece com o caos. E não o conceito que o Ocidente adotou para representar a desordem, mas a origem etimológica da palavra: khaos, do grego, o vazio. O espaço onde tudo acontece e toma forma. Estrultura-se. Assim também é a filosofia do karate. Do vazio nasce a estrutura filosófica. Antes da técnica, existe uma maneira de pensar. ‘DO'( caminho ), o caminho da razão. Um caminho a seguir. Assim também é a filosofia do karate. Do vazio nasce a estrutura.
karate-do
O caminho das mãos vazias
Hoje quero falar sobre um dos princípios ensinados por Gichin Funakoshi: a arte de não ser vencido.
Não pense em vencer…
Vamos trazer essa ideia para um nível mais primitivo. Nossos ancestrais precisavam caçar para sobreviver. Era uma questão de vida ou morte. Não havia espaço para distrações, prepotência. Era preciso observar os predadores, proteger o grupo e antecipar qualquer ameaça.
Pensar apenas em vencer poderia abrir espaço para erros: pela prepotência, pelo excesso de confiança, pelo costume ou pela acomodação. Um único erro poderia ser fatal.
Agora pense em Roma. O famoso império, ‘inabalável’.
Durante muito tempo, o Império Romano afastou seus inimigos mais pela percepção de sua força do que pelo combate em si. Vencer a guerra sem ao menos batalhar. Era uma verdadeira muralha psicológica. Sun Tsu ja dizia isso em arte da guerra;
A suprema arte da guerra é derrotar os inimigos sem lutar. -Sun Tsu

Mas Roma perdeu para Roma. Se você estivesse naquele momento histórico e dissesse a um soldado romano: “Tudo isso que seus olhos contemplam um dia irá ruir”, provavelmente ele riria de você.
Eles pensavam em vencer. E venceram. Mas o que fizeram depois?
Perderam estrutura. Perderam o controle dos territórios, o foco, a disciplina e a unidade. Dispersaram energia e começaram a ruir por dentro. Tijolo por tijolo até cair. Talvez porque a ideia de vencer tenha se tornado maior do que a preocupação em não perder.
…pense em não perder!
Pensar em não perder em um primeiro momento pode parecer a mesma coisa mas tem um detalhe importante, o equilíbrio. Entre a razão e a emoção. Vamos imaginar um cenário, você acaba de comprar um carro. Você sai pra dar um volta e um veículo fecha sua passagem e você bate o carro.
Você está coberto de razão porém sair do carro para impô-la e deixar a emoção escalar a um nível físico, com certeza lhe trata prejuízo muito maiores, talvez a vida. Não perder é agradecer pelo prejuízo ser apenas material e tomar as medidas cabíveis entre ambas as partes.
Não é o que acontece com você, mas como você reage ao que acontece que importa. – Epicteto
Talvez o objetivo nunca tenha sido vencer ou chegar ao cume da montanha, mas aprender a caminhar até ela. Talvez nunca tenha sido sobre poder, conquista ou controle, mas sobre cuidar daquilo que já nos foi concedido e o que escolhe ficar.
Funakoshi não estava nos ensinando a pensar de forma escassa, mas a compreender prioridades. Antes de conquistar novos territórios, preserve aquilo que torna qualquer conquista possível. Antes de buscar mais, cuide do que sustenta quem você já é. Não se perder em suas próprias emoções. Não pecar pelo excesso e nem pela falta.
Autor
blog.lucasventura@gmail.com
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